
domingo, 25 de abril de 2010
25 de Abril de 2010

quinta-feira, 8 de abril de 2010
Não um comentário, uma 'companhia'
Dois traços apontados por Paolo Virno como essenciais para o niilismo de uma época pós-Fordista, flexível, imaterial – ou pelos menos para a transição.
Oportunismo + Cinismo.
Irrupção do discurso tardio da Autonomia e da sua obsessão pela transição de uma maquinaria Fordista para pós-Fordista, pela precariedade gerada, mas por igual pela oportunidade surgida. O que é mau é também bom, o que oprime liberta por igual. Dizia Foucault:
Q: Let's return to your politics in The History of Sexuality. You say: "Where there is power, there is resistance." Are you not thus bringing back this nature which a while back you wanted to dismiss? MF: I don't think so, because this resistance I am speaking of is not a substance. It is not anterior to the power which it opposes, It is coextensive with it and absolutely its contemporary. Q: The reverse of power? That would come to the same thing. Always the cobblestones under the beach... MF: It isn't that either. For if it were only that, it wouldn't resist. To resist, it would have to operate like power. As inventive, mobile and productive power. Like power, it would have to organize, coagulate, and solidify itself. Like power, it would have to come from "underneath" and distribute itself strategically. Q: "Where there is power, there is resistance." It's almost a tautology. (1)
Diz Paolo Virno:
In the post-Ford era mode of production, opportunism acquires a certain technical importance. It is the cognitive and behavioral reaction of the contemporary multitude to the fact that routine practices are no longer organized along uniform lines; instead, they present a high level of unpredictability. Now, it is precisely this ability to maneuver among abstract and interchangeable opportunities which constitutes professional quality in certain sectors of post-Fordist production, sectors where labor process is not regulated by a single particular goal, but by a class of equivalent possibilities to be specified one at a time.
+
Cynism is also connected with the chronic instability of forms of life and linguistic games. This chronic instability places in full view, during labor time as well as during free time, the naked rules which artificially structure the boundaries of action (...) one is no longer immersed in a predefined "game", participating therein with true allegiance. Instead, one catches a glimpse of oneself inside individual "games" destitute of all seriousness and obviousness, having become nothing more than a place for self-affirmation (...) (2)
Entretanto, Pascal Gielen lançou recentemen uma colecção de ensaios: The Murmuring of the Artistic Multitude. Global Art, Memory and Post-Fordism (3). Dispensado aqui a crítica literária, os ensaios de Gielen - para mal e para bem, ressaltando uma vez mais e como não poderia deixar de ser a ambiguidade entre o que é bom e o que é mau - murmuram eles mesmos também. Isto é, prometem mas não gritam. A reverberação é escutada ainda assim: o meio cultural e artístico é o perfeito acolhedor da exploração da flexibilidade laboral e da biopolítica; o corpo (per)feito do paradoxo liberdade/constrangimento.
Trememos. A instabilidade, adoramo-la.
Oportunismo + Cinismo.
A verdade é que sempre se tremeu. Somos os primeiros de uma geração, de um novo homem, muito antes de Wall Street.
Oportunista e cínico, sempre o foi o artista - aos tempos remotos. Poder-se-á mesmo dizer que não fosse o artista cínico e oportunista pouca 'boa' arte existiria - muito menos resistência. O jogo de pés, o jogo de cintura, saber que não se pisam apenas os ladrilhos do pavimento - podemos ser bipolares mas não somos obsessivo-compulsivos - mas que se contornam as junções, que se fazem desvios, que se calcula, que se deturpa o Inov-art - eis enfim a justificação deste texto - para fins concretos:
- dão-nos uma secretária, logo a transformo numa barricada - já vi isso algures!
- dão-nos um balcão, construo um arquivo no reverso - a rapariga em Un bar aux Folies-Bergère de Manet é artista!
- oferecem-nos estágios como assistentes, logo fazemos a ocupação, curadoria, exposições, voz.

Edouard Manet, Un bar aux Folies-Bergère, 1882
Saltimbancos e artistas de circo, stockbrockers e beats: a diferença é difusa.
Ainda assim, isto não é uma defesa do oportunista e do cínico, muito menos do Inov-art. A duplicidade do que é mau é bom é escutada - é o livro vermelho do artista - mas se de facto fomos os primeiros de uma geração flexível, há questões a resolver.
Um qualquer artista abraça a precariedade, vê nesta a ilusão: liberdade - e não há nada que o artista preze mais que liberdade, liberdade acima mesmo de união! Liberdade intelectual, liberdade de expressão, mobilidade, "never lay down those roots" – nem preciso mesmo de ler os Mil Planaltos, sei-o no corpo, é imanente! O resto é acaso e um controlo exímio do oportunismo e do cinismo inerente à profissão. A queda pode ser sucesso e o sucesso queda, é uma questão de tempo – e dos tempos também.

Oliver Stone, Wall Street, 1987
Mas de facto, é de uma profissionalização que se trata e é essa a dobra. Há sem dúvida aqui algo por perscrutar: posições e posicionamentos. O artista não quer contracto, mas quer segurança – financeira acima do mais. O artista não quer constrangimento, mas não quer por igual ser explorado – horário flexível e indistinção entre lazer e trabalho estilo 24/7, ou defesa do horário laboral, em que ficamos?
Um relato: ela disse, naquele sotaque tocado de inglês indiano, "I don't want to be like them" - o them apontado o artista de ou no mercado. Mas que them é esse a que ela se refere, pensei. De onde surgiu a interrogação, após a consciência do deslize no qual ela acabara de incorrer e de um ligeiro embaraço a acompanhar: que momento foi esse no qual passámos a separar as águas como facções - irreais, acrescente-se - entre aquele no mercado e o suposto exterior - sempre o integro, monarca da ética e da demagogia. Quando se deu? Uma resposta deu-se depois – não necessariamente a correcta, se esta existe – em conversa e num sotaque diferente, forçadamente inglês de um estrangeiro: "O momento não foi um momento, mas uma adequação: a profissionalização do artista."
A resposta é uma sombra, ou pelo menos tanto como uma suposição. Mas se há algo a criticar então no programa do Inov-art - no que se refere a artistas em sentido amplo - é essa consciência ou prolongamento de que é necessário profissionalizar, se ser artista é uma profissão. Mas em contrapartida a completa falta de noção do que essa profissionalização do artista enquanto programa cultural e de apoio deve fazer. Enviar artistas enquanto assistentes? Óptimo, o artista é oportunista e cínico, já se o disse: há uma criatividade latente e o detoùrnement é um clássico garantido. Mas não fará mais sentido apoiar antes a produção criativa do artista, de estruturas dentro e fora do país, facilitar acessos a residências artísticas, a realização de projectos específicos? O Inov-art é um instrumento do Estado reflectindo bem a distância existente entre este e a realidade dos agentes culturais. Para mais, o Inov-art é uma estrutura homogénea - mas, dado o elevado número de candidaturas a este, aparentemente hegemónica também - sem trabalho a nível micro do que cada área cultural é e exige. Mas por outro lado, se a DGartes em si mesma enquanto estrutura homogénea é uma desilusão que seria de esperar?
Ser artista pode ser uma profissão - continuo a ter dúvidas - mas se assim for um é profissionalmente artista: não assistente de exposição ou empregado numa instituição ou residência artística - encontrando-se em residência não enquanto artista mas enquanto empregado. O que é preciso compreender é como o artista não é nada disto, mas que o é também. Por outras palavras, que o campo é aberto e que nas artes as intenções dos agentes são dúbias e específicas a cada caso – sou artista mas desejo ir trabalhar enquanto assistente porque é por aí que o meu trabalho se desenvolverá; sou artista mas quero trabalhar no campo académico porque é por aí que o meu trabalho se desenvolverá; sou artista e quero uma residência artística porque quero um estúdio; sou artista e não quero nada senão que me apoiem a realizar a visão que tenho. Para lá do artista [curadores, historiadores, etc] as variações são outras mas não radicalmente distintas. Caso o apoio – da DGartes/ Inov-art ou qualquer outro – não tome conta da pluralidade que é hoje o campo das artes, pouco restará senão, e como referido no texto abaixo, a aplicação de um Fordismo ao agente cultural que (aparentemente) falhou numa procura desesperada pela sua inserção no mercado de trabalho – reduzindo deste modo os números num país em crise.
Oportunismo + Cinismo + Profissionalização
Dobras dentro de dobras. E no entanto, uma dobra imprevista irrompe do processo do Inov-art: a dobra do artista enquanto curador - não profissionalmente mas conceptualmente. O artista enquanto gerador de conteúdos, de plataformas, facilitador. O artista que vai é oportunista e cínico, mas será ele inteligente o suficiente para contornar e aprender com as oportunidades que lhe são dadas: com ser secretário, ser assistente? É uma questão lançada àquele que volta.
Um último relato: Dois bagels na mesa, um chá preto, um latte. Um certo barulho e a música não é particularmente boa mas, como seria de esperar, demasiado alta. Esforço-me, “Bem sei que o precário sistema de estágios não remunerados sustenta todo o campo da produção cultural e artística. Que se não fosse esta realidade de exploração não haveria campo, e que se de um dia para o outro esta exploração cessasse o campo em si mesmo entraria em colapso. Mas se se for oportunista e cínico em boa dose, ou mesmo que não se o seja, por vezes acontece, há algo que se ganha também em ser estagiário: ganham-se contactos e relações, não? E ambos sabemos quanto estes contam.”, “Sim sem dúvida, mas ao reconhecermos isso incorremos em erro novamente.” consegui ouvir “A exploração é dupla: não só uma exploração de capital mas de expectativas. Trata-se sempre de expectativas. É assim que se os ganha e que se vê os coelhos pular.”

bagel and latte, algures, 2010
(1)Michel Foucault, em Foucault Live, Collected Interviews 1966-1984 (Semiotext(e), 1996)
(2)Paolo Virno, A Grammar of the Multitude (Semiotext(e), 2004)
(3)Pascal Gielen, The Murmuring of the Artistic Multitude (Valiz, 2010)
quarta-feira, 31 de março de 2010
Braço armado!


terça-feira, 23 de março de 2010
O nosso espaço é seu.
Caros leitores,terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
O tempo dentro de nós

Atravesso a sala.
domingo, 3 de janeiro de 2010
Como mel para a boca.

Esferas de Influência:
Ontologia Antropofágica, Periférica, Maravilhosa
Em 1928 o papagaio narrador atravessa o Atlântico após a transformação de Macunaíma em constelação: direcção Lisboa. Uma tradição de espera, sem dúvida.
+
Em 1970, com Godard por trás da câmara de filmar, Glauber Rocha aponta dois caminhos: o mesmo ou 'um cinema perigoso, divino, maravilhoso!' A personagem escolhe um terceiro, pelo mato, sob os arbustos ao canto do plano.
=
Contra José Gil, (re)colonizemo-nos.
Apresentação e conversa por Pedro Neves Marques em torno de: revisitação antropofágica; detoùrnement antropofágico (ou como a arte ganha sempre); ontologia antropofágica. Pedagogia. Estética. Geopolitização (uma vez periferia sempre periferia, ou centro é onde os meus pés pisam).
Sábado 13 de Fevereiro 18h

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Hipnotismo e acção



domingo, 22 de novembro de 2009
Anos 70

sábado, 14 de novembro de 2009
Vem aí a feira.
Nevertheless, I will talk about Matthew Brannon
Um texto simples, mas sem simplicidade (prezando o artista em causa).
Matthew Brannon é um segredo o qual recentemente descobri partilhar com um bom amigo. Uma paixão partilhada portanto, ao ponto deste (amigo com paixão em comum) ter um recorte de uma gravura do artista em causa – Matthew Brannon – cortada de um página da Frieze, emoldurada e exposta na sua própria sala. Infelizmente não a vi, a distância impede-me. Mas satisfaz-me o pensamento.
Farei uma elipse. Julgo que Brannon concordaria – com Brannon a mensagem, evocação que seja, demora-se sempre um pouco mais.
Brideshead Revisited (1945) é um livro fundamental de Evelyn Waugh, mais tarde filmado pela BBC (1981) para televisão com Jeremy Irons como actor principal – mais tarde ainda tornado filme ridiculamente adolescente, infantilização da História que percorre o nosso tempo (2008). Curta e sucintamente, B.R. narra a relação de Charles Ryder, middleclass, literato e ateu, com a família Marchmain, aristocrata e piamente católica, numa sucessão de anos (1923-1943) os quais, em última
instância, expõem o encerrar de uma aristocracia britânica oitocentista; a desilusão moderna e a impotência do pensamento intelectual; os restos de uma religiosidade vitoriana.
Para quem, como eu, sobreviveu à revisitação de Brideshead, versão BBC, mas por igual o próprio romance, e prossegue a vida agora com o ressoar da travessia atlântica por mar que marca o interstício da narrativa, um intermezzo teatral, a última exposição individual de Brannon em Londres não poderia ter por igual ressoado de outro modo: decadente, alucinogénica mesmo, e paródica, em suma, tragicómica.
A cena a que me refiro preenche dois episódios da série, ou seja, aproximadamente duas horas de vida – o tempo é aqui fundamental. As referidas duas horas de tempo fílmico paralelizam o tempo de viagem transatlântica dos personagens, Charles Ryder e Julia Flyte, os quais, reencontrando-se naquele navio após um hiato de vários anos, abandonam-se em deambulação, psicológica e física, pelas memórias de um e outro. O balanço da tempestade isola o casal na sua deambulação pelo navio, por infindáveis corredores, pela proa, numa hipnose temporal, sem tempo e pelo tempo, entre a desilusão da juventude, o decadentismo da época (entre guerras) e a ascensão subliminar de um erotismo compensatório – o amor homo-erótico e original de Ryder, Lord Sebastian Flyte, perdido no álcool, algures em Marrocos, fora da narrativa à vários capítulos. A cena continua a comover-me.
Matthew Brannon podia bem ir naquele navio, sem que Charles ou Julia por tal dessem. Talvez Brannon escrevesse aquela história, e não Waugh, como enviesadamente pareceu fazer na sua última exposição na The Approach, em Londres.
Brannon é um escritor, acima de tudo, embora seja artista, como é evidente. Diria mesmo que Brannon é uma espécie de Robbe-Grillet, em táctica expandida (ainda assim não tanta que em Robbe-Grillet). Gravuras de narrativa obscura com diálogos cruzados ou em fuga; instalações como palcos de teatro, vazios e por preencher; romances escritos pelo próprio, colocados a uma distância impossível de acesso. O trabalho de Brannon, ou melhor, o ambiente que instaura, é de um outro tempo, de uma outra temporalidade que hoje, uma temporalidade passada, reminiscente tanto de um modernismo início de século como de uma época de ouro: lifestyle 1950, América, sem dúvida. Os modos de socialização, a retórica, as relações intuídas, a pose, o cuidado, os trejeitos: etiquetas assim não nos pertencem já. Olhar, percorrer as narrativas que Brannon impõe, de página para página, no tempo e no espaço de caminhar a cada gravura, por entre placares, é viajar no tempo, reconhecermo-nos na distância, identificarmo-nos na estranheza.
Not Necessary, 2008
[Se algo se diluiu com o passar do tempo foi essa perfeitamente clara distinção entre modos de privacidade e de figura pública. Refiro-me aqui a modos de comunicação, e não à exposição e/ ou julgamento público dos nossos actos: uma diluição entre figura pública e figura privada. Refiro-me a uma linguagem específica, tanto verbal quanto física, de pose, na socialização. Posturas sociais. Em Inglaterra a genealogia prolonga-se ao Vitorianismo, mas não é necessário ir tão longe e remotamente. E por favor, não me falem de divisão de classes, sei bem como modos são política e estratificação.]
A Well Pissed on Tree, 2007
Mas é precisamente através dessa identificação na estranheza, entre páginas, na intuição da narrativa, que os ambientes instaurados por Brannon parecem retornar, devolver um tempo – os seus modos, estilos de vida e expectativas, imaginados em retrospectiva claro está – a outro mais presente: este. Os modos não nos pertencem já, mas copiamo-los, esvaziados de etiqueta. A devolução é ácida e plena de sofisticação; chic e decadente. Olhar gravuras de Brannon é olhar o espelho, reconhecermo-nos [perdoem, mas é plural] com um certo terror: cá vamos nós, intelectuais chic, de inauguração em inauguração.
Feita a elipse, quem diria, a paixão revelou-se crítica novamente.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Bruno Cidra
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Pedro Barateiro - Teoria da fala



domingo, 11 de outubro de 2009
Arena, de João Salaviza
O filme “Arena”, de João Salaviza, ganhou a competição de curtas metragens do Festival de Cannes. Vou escrever este texto porque estive a vê-lo em ante-estreia no bairro da Flamenga, na Bela Vista, onde foi filmado. Vou escrevê-lo porque apesar das centenas de pessoas que lá estavam a vê-lo, não tenho bem a certeza dele ter sido visto. Também não tenho a certeza de que, sendo exibido antes da longa-metragem de Ang Lee, "Taking Woodstock", venha de qualquer modo a ser visto. A palavra Cannes esmaga muito facilmente quinze minutos de película e facilmente os transforma também em pouco para o que podemos esperar que tão luminosa atribuição. Ver, ver realmente, é também uma actividade que requer um certo esvaziamento de si e que uma ante-estreia num local justo mas tão ruidoso (nos diversos sentidos da palavra) ou um visionamento antes de uma longa-metragem não deixam ver com muita facilidade.
No entanto, a palavra Luz, essa sim, é uma óptima palavra para começar a falar de Arena. Em cada plano deste filme assoma uma luz aberta e veranil. É em um meio de sol. Este filme é um desenho curto e geométrico sobre violência, debaixo de sol. Ou é um desenho sobre geometrias e ciclos de poder, debaixo do sol. Mas esse desenho tem arredondados os ângulos da sua cuidada e pequena geometria, de maneira a que, não magoando nem mostrando tudo, se mostre um pouco melhor o coração da dor. É constituído de dois ou três círculos e de duas ou três caixas. Vou tentar explicar isto.
O filme é o protagonista a estar em prisão domiciliária, tatuador; a ser a acossado por um adolescente local acompanhado de amigos, por via de uma questão de dinheiros respeitante a uma tatuagem supostamente mal feita; a ser atacado e espancado por esses mesmo miúdos, que logram entrar-lhe em casa e roubar-lhe dinheiro que lá tem; a recuperar do ataque e a preparar-se para sair; a procurar pelo miúdo; a encontrar um dos amigos, que coagido, lhe diz onde está o miúdo; a encontrar o miúdo no topo de um edifício, enquanto este mexia num velho carro avariado; a tentar extorquir-lhe o dinheiro; não conseguindo, a fechá-lo dentro da mala desse carro; a vigiá-lo lá dentro por um bocado; a deitar-se nesse terraço debaixo do sol, não reparando na fuga do rapaz.
Isto que acabei de dizer, parecendo que diz tudo o que a curta é, não explica praticamente nada. Não diz, por exemplo, a beleza do tempo que o olhar que a câmara é demora para ser isto tudo. O cinema é a experiência voluntária de ser a visão de quem filmou, e eventualmente de ser-lhe uma espécie de sobre-consciência; de receber como balões vazios as escolhas do olhar que o filme é, e depois insuflá-los com a nossa própria vida e noções. Ora, a possibilidade que eu tive de Ver, se é que vi, este filme, teve muito que ver com este cuidado temporal do João e com a capacidade de “não fazer do espectador refém da manipulação de emoções”(citando de memória Abbas Kiarostami) e apenas apresentar as cenas pousadamente sobre o real. Assim, em meio de um “é só isto?” que muita gente sentiu no final da projecção, e do qual eu também semi-compartilhava, pôde começar a nascer em mim, logo no momento do escurecimento da tela, um vivíssimo pós-filme, feito de tudo aquilo que o realizador não quis impor mas que ficou pela pregnância de cada imagem e do modo de as verter umas nas outras. Começou a aparecer o desenho, o tal desenho debaixo do sol. Provavelmente o que me apareceu é tanto meu quanto dele, porque o realizador deixou espaço para isso. É já quase lugar comum dizer-se que importa dos filmes sobretudo aquela matéria de consciência e vida que eles emanam para lá do seu visionamento, não tanto o impacto imediato de gosto ou dissabor. Como felizmente não tenho nada contra lugares comuns (é bom estar num sítio com mais gente, sítio comum, desde que o sítio seja arejado e as pessoas lá realmente vivas e presentes), sento-me com prazer nessa cadeira que diz: só vi o filme depois dele acabar.
Vi então, e também porque a escolha dos planos era límpida e nada auto-referente e permitia então estas clarezas à posteriori, que havia um homem preso, e preso em casa. Vi que a sua casa era quase em si uma prisão, mesmo que ele eventualmente não estivesse com a pulseira electrónica. Vi isto no modo como ele e o vizinho eram músculos preparados para o combate. Combate em casa. Vi que a própria geometria do lugar configurava uma prisão, uma arena, claro. Sem que apareça tão literalmente no filme, o próprio local onde o vimos a estrear-se é o centro dessa arena: um longo pátio onde confluem as traseiras de vários prédios do bairro da Flamenga, prédios esses ligados por passagens aéreas para as pessoas. Certamente esta disposição contaminou o desenho que o filme é. A descabida e taveiresca arquitectura do local, desdobrando-se em pesados e circulares motivos decorativos das janelas e em egocêntricas afirmações de rectas dispostas com a sensibilidade de uma retro-escavadora, não faz mais do que confirmar a tensão constante que é a vida nesta casa colectiva.
Numa arena combate-se ao sol. E nesta combate-se perante o escrutínio constante dos vizinhos. É a comunidade dos homens que constitui as leis que regem o corpo social. E as leis erguem-se para que se saiba o que há a fazer, para que não se tenha de estar sempre a explicar e a perceber, para que não se tenha de estar sempre a comunicar e reconstruir, para que se possa ver tranquilamente a televisão sabendo que lá fora, debaixo do sol, para cada tentação há uma lei que a proíbe e uma tensão policiária que a dissuade. Mas mesmo preso o corpo pede sol, ser irremediavelmente bicho, e se tenta cumprir em rigor a punição de estar confinado a casa, vem o corpo social a casa provocá-lo, chamá-lo, convocá-lo para a sua arena natural, lá fora. Mesmo arriscando agravar-se-lhe a pena por sair do perímetro ditado, o protagonista persegue o Alemão, o puto que veio a casa roubar-lhe o guito. E as pessoas acorrem cá fora a ver o que persegue aquela personagem agitada (Mauro, cerca de 25 anos, representado por Carloto Cota). Pelo caminho, numa das Imagens do filme, o protagonista encontra sobre uma das pontes entre os edifícios um dos rapazes que foi lá casa com o alemão e, entre agressões e perguntas sobre o dinheiro e o paradeiro do Alemão, faz chantagem pendurando a bicicleta do rapaz por fora da varanda da ponte. Depois deixa-a cair. Essa ponte, em conjunto com uma segunda ponte por cima desta e com os prédios que as ladeiam, configura uma espécie de duplo vazio do ecrã, com a cidade ao longe e tranquilamente como fundo. Todo o filme é desta tensão em primeiro plano com a cidade ao fundo. Sob o sol.
Por indicação deste miúdo da ponte, Mauro sabe onde está o Alemão e, de novo filmado marcadamente em relação com a arquitectura, subindo um espiralado acesso para carros, vai encontrá-lo finalmente no terraço amplo de um prédio, possivelmente uma fábrica abandonada. Intimida-o para que lhe dê o dinheiro, ameaça atirá-lo lá para baixo e, nada conseguindo com a força dos braços e das palavras, vai trancá-lo na mala do carro avariado em que este mexia. Fica ali a vigiá-lo, naquela posição absurda. A inexistência de um farol de trás do carro permite que o rapaz estique a mão e consiga abrir a mala, mas o fracasso desta fuga por Mauro ainda o estar a vigiar sublinha ainda mais o absurdo de estar preso na mala de um carro avariado no topo de um edifício, debaixo do sol, com a cidade toda ao fundo. Esta situação de punição, fechamento e vigia é como um eco da outra que Mauro vivia lá em baixo, preso no apartamento. Mas, tal como Mauro, o rapaz acaba mesmo por escapar-se. Porque Mauro, a certo ponto da vigia, já demasiado cansado daquilo tudo, deita-se ao sol no terraço e como que adormece, nessa outra arena que é o terraço aberto. Também Mauro, neste ajuste de contas, saiu da prisão domiciliária. Aqui acaba o filme. Diz-nos o filme, ou está feito de maneira a que dizemos a nós mesmos: terá de voltar para casa, prender-se. Diz: presos pela cadeia social e do tempo, tal como a Ordem prendeu Mauro em casa e este prendeu o Alemão, mais novo, no porta-bagagens, também um dia o Alemão será provavelmente preso. Diz, não diz mas faz suspeitar: que Mauro a descansar no terraço aberto ao sol tem melhor e mais intimamente desejada recompensa do que o mero retorno da guita que lhe foi roubada.
Eis a ordem das caixas: corpo, carro, edifício. Entre as caixas circulam energias conforme leis muito antigas, debaixo do sol. Este conto só não é sem-esperança porque há qualquer coisa de compreendedor no olhar que é apresentado aqui: tem espaço entre as coisas, não acusa mas compreende, mostra e deixa em aberto. Deixar em aberto certas coisas é em si uma absolvição, porque dá possibilidade de escolha. Algures, ocorreu-me que este conto (vou chamar-lhe assim, porque tem uma tal concentração justa de palavras visuais e arquétipos que não desencaixa muito dessa categoria antiga) era sobre a mobilidade reduzida, sobre a impossibilidade de mover-se. Senão vejamos: lei-prisão, desejo de ter uma tatuagem com uma águia mas que parece apenas uma andorinha, arena-luta, bicicleta atirada da ponte, carro avariado, fechamento dentro de mala.
Ser ante-estreado no Bairro da Flamenga, onde foi em boa parte filmado, se por um lado demonstra a generosidade do realizador para com o sítio aonde nasceu o objecto de filme e a consideração que tem para com a aspereza de viver num bairro como aquele, por outro lado pode fazer crer que esse pendor social seja o cerne desta pequena obra. A nosso ver, não é. Encaixaria muito melhor na dimensão atemporal do conto, erguendo-se (e isso é contudo muito relevante) a partir de material deste local e tempo presente. De outro modo: na balança entre o poético e o social neste filme (fosse algum dia possível artificialmente separar os ossos da carne, para pesá-los), a balança pende para o poético. O cuidado extremo é posto neste segundo factor, não tanto no primeiro. A ver: a estrutura narrativa, visual e dramatúrgica da curta (como já referido) é quase impecável e, por outro lado, na realidade entroncada daquele lugar, custa facilmente a crer que algum dia dois miúdos muito mais novos entrassem na casa de um mais velho e mais forte para se vingarem. É uma questão de propriedades do território, de hierarquia local. “Arena” não é nunca o exercício de estética desatenta ao real dali mas, face à atenção tanta a certas propriedades do corpo social, a visível desatenção a outras diz duas coisas: que o pousar sobre o real leva tempo (e o João tem 25 anos), que é a poética a área inequivocamente conquistada por este filme.
Não é um filme espectacular, não é um filme fechado sobre si, não é um filme fácil e é um filme solar e atento. Muito atento às peculiaridades de ser um filme e deste ser sobre pessoas. Filme cuidado e pequeno. É um filme de um realizador a nascer. E não pretendia nem pretende ser mais do que isso, como aliás a atitude pessoal do realizador só confirma. Este texto nasce da vontade de isto seja visível, muito além e, felizmente, muito aquém do estrondo do prémio de Cannes.
Falta falar de uma última motivação para estas palavras, e que não deve ser vista como antítese da anterior, porque se Cannes pode fazer esperar demasiado deste filme é também uma notável aceitação e porta que se abre: notar, talvez desavisadamente mas com a intuição de estar a apontar uma verdade inequívoca e motivadora, esta consagração de “Arena” como sendo também parte de uma crescente e sensível dinâmica criativa neste país. Notar a felicidade pelo reconhecimento (não por ser internacional, mas por ser amplo) de alguém que, como muitos, “anda aí por Lisboa a fazer coisas”. Notar toda esta dinâmica, visível entre muitas outras coisas pelo facto de não se ter notícia de um fim semana desde Maio (exceptuando Agosto, claro) deste ano de 2009 em que em Lisboa hajam menos de dez eventos culturais de interesse, num momento chamado de especial “crise”. Se isto recorda talvez por um lado a especial ligação entre criação artística e parcimónia de meios, por outro lado é consequência do trabalho e entusiasmo de múltiplos criadores, professores, programadores e instituições mais ou menos formais ao longo dos últimos anos. Não pode isto resultar num elogio à maioria das entidades culturais oficiais, porquanto é por exemplo notória a estagnação de sectores como os da crítica artística de fundo e de vários outros sectores, mas num elogio a quem de facto no terreno tem constituído o tecido deste primeiro momento em que, sob múltiplos aspectos culturais, é mentira dizer que Lisboa é uma cidade parada.









